Meus amigos, hoje abordo um assunto sério: morte. E não adianta torcer o nariz porque estou falando com você mesmo. Peguei o ônibus rumo ao trabalho como diariamente faço, e entre um resmungo e um pensamento, o veículo para num congestionamento numa via onde há poucos semáforos e a velocidade costuma deslanchar. Podia ter sido um acidente ou uma batida policial mas infelizmente era a primeira alternativa. Assim que me levantei do coletivo e vi pela janela que a vítima não estava coberta, dei sinal e desci do ônibus. Voltei depressa para fazer uma triste constatação: nunca vi um cadáver em tão péssimo estado como o de hoje de manhã... pela primeira vez vi uma cabeça amassada, aberta e massa encefálica espalhada pelo asfalto. Mãos, braços e pernas estavam tão amarelas que mais pareciam um desses bonecos de plástico que servem de manequim em lojas de roupas.
Mas não, eram de um ser humano de verdade.
O coração bateu forte mas foi impossível não olhar, atento como um abutre. Aspirante a jornalista, reparava minuciosamente no trabalho dos agentes de trânsito, da polícia científica, do fotógrafo e dos demais profissionais que tentavam devolver a ordem àquela manhã de sangue no bairro de Americanópolis.
Muitos dos que estavam ao meu lado repetiam copiosamente “oh meu deus, que feio jesus! Não desejo isso pra ninguém, oh! Nunca mais quero ver uma coisa dessa na minha vida, pai do céu tende piedade” dentre outras coisas do gênero. Chega a ser asqueroso o cinismo dos espectadores deste brutal espetáculo macabro. Ao menos metade das pessoas que expressavam compadecimento pelo atropelado empunhavam câmeras e celulares, disparando cliques alucinadamente. Não queriam mais ver uma coisa feia daquelas mas não viam a hora de chegar em casa e exibir as imagens como um troféu: “gente! vocês não vão acreditar no que eu vi hoje, dá só uma olhada” e certamente teceriam a mais bela narrativa de horror digna de Stephen King ou Edgar Allan Poe. Declararam nojo mais não saíam de lá até que tudo fosse removido. Muitos ainda ficaram para admirar as manchas de sangue no asfalto e o saco de despojos. Uma agente da CET pediu a uma dona de casa uma pá para recolher restos de cérebro. Findo o trabalho, a senhorinha não quis a pá de volta. A agente então jogou-a no mato.
Fiquei pensando em como seria vasculhar a mochila do pobre coitado, procurar documentos, encontrar um telefone, ligar para a família e fazer o terrível comunicado:
–Alô, aqui é o delegado de seccional noventa e nove, preciso falar com o responsável pelo jovem fulano de tal.
–Pois não, aqui é a mãe dele. O senhor disse que é delegado? O que meu filho fez doutor? Por que ele está preso?
–Ele não está preso, mas a senhora precisa comparecer urgentemente aqui para conversarmos seriamente.
–Ai, meu deus, seu delegado, estou assustada? Meu filho está bem?
–Não, não está. A senhora precisa vir imediatamente.
–Onde ele está, doutor? Pelo amor de deus, onde está o meu filho?
–No IML.
Horror, susto, medo, sonho, choro, grito, lágrimas!
Saudade...
Deve ter sido mais ou menos assim, gostaria de poder ouvir uma conversa como essa.
Melhor não.
Não consigo imaginar minha mãe atendento essa ligação, já pensou sua mãe ou seu pai tendo de atender um telefonema assim sobre você?
Cruel.
É realmente muito feio ver o trabalho técnico da perícia. De luvas, eles fotografam vários ângulos, dão closes horripilantes. É preciso muito preparo para aguentar o cheiro enquanto fotografa seu semelhante com a cabeça aberta cheirando podridão e olhando para você com um olhar de quem suplica “moço, me ajuda! Me tira daqui dessa situação, eu não queria morrer!”
O jovem ficou preso entre as ferragens do que outrora fora sua bicicleta. Foram precisos três policiais para desprendê-lo dela. As pernas estavam completamente quebradas, e após separarem os dois, soltaram o corpo, que caiu no chão com uma das pernas esticada normalmente e a outra completamente estirada para cima e para trás. O pé ficou calmamente apoiado sob a cabeça.
Paciência...
Peço a todos: muita atenção na rua meus queridos. Hoje um ciclista, amanhã um pedestre. Pode ser eu ou você. Trabalhe, estude, saia, passeie, ame, viva. Mas, pelo amor, volte pra casa. Se você dirige automóvel ou guia uma moto, respeite o limite de velocidade e sempre dê preferência ao pedestre. Cuidado e máxima atenção. Seja responsável. Não fale ao celular, não fique mexendo no som ou fume enquanto dirige. Se você é pedestre ou ciclista, não queira medir forças com os carros. Ninguém ganha nada com isso. Use equipamentos de segurança e sempre diga aonde vai. Atenção quadruplicada e segurança sempre. Saibam que todos temos um limite e que somos muito frágeis. Feliz de quem não tem nenhum familiar morto no espetáculo do horror humano do trânsito.